
O artigo da diretora do Fertilitat, Mariangela Badalotti, aborda pesquisa divulgada por cientistas chineses que aponta para a maternidade após a menopausa.
Vem da China uma novidade científica que, se comprovada, mudará muita coisa do que se conhece no campo da reprodução humana. Cientistas chineses aprofundaram uma pesquisa iniciada em Harvard, que pode tornar concreto o sonho de muitas mulheres: a maternidade após a menopausa. A pesquisa foi feita com camundongos, mas existe expectativa que os resultados valham também para os seres humanos.
Estes cientistas isolaram células-tronco do ovário de ratas jovens e adultas e cultivaram estas células em laboratório por meses. Neste período, elas se reproduziram. Depois de congeladas e descongeladas, elas continuaram se reproduzindo. Paralelamente, induziram falência ovariana em um grupo de ratas, através de quimioterapia. Metade destas ratas recebeu células-tronco do ovário. Uma parte delas recebeu células das ratas jovens e a outra parte das adultas. Alguns meses depois, as ratas que receberam as células-tronco estavam ovulando e cerca de 80% delas engravidaram, em ambos os grupos. As ratas que não receberam células-tronco continuaram sem função do ovário.
O que muda em termos de conhecimento científico? Isso quebra um paradigma a respeito da fisiologia ovariana, pois, até hoje, o que se sabe é que o número de óvulos é finito nas mulheres. Em 2004, foram descobertas células-tronco nos ovários, mas sua função não estava estabelecida. O que a atual pesquisa aponta é que as células-tronco germinativas dos ovários continuariam a produzir ou induzir a formação de óvulos ao longo da vida. Mas profundas mesmo poderão ser as mudanças comportamentais que esta descoberta poderá provocar.
Adiar a gravidez já virou uma marca do nosso tempo. Com tantos projetos a concretizar – consolidar uma carreira profissional, realizar-se no amor, entre outros – as mulheres têm optado por terem seus filhos mais tarde. Essa decisão acarreta alguns riscos, visto que a fertilidade feminina começa a diminuir a partir dos 35 anos e cessa com a menopausa. A medicina reprodutiva já avançou muito no campo da infertilidade, mas, até aqui, não conseguiu romper esta barreira inevitável para a gravidez na vida da mulher.
É aí que entra a grande revolução da descoberta apontada pelos chineses – a possibilidade de ultrapassar este obstáculo. Se os resultados se confirmarem, mulheres que haviam abandonado o sonho de serem mães poderão reavivá-lo e, através de reprodução assistida, poderão procriar. As mulheres que perderam a função dos ovários devido ao tratamento para o câncer – de mama, pela quimioterapia, por exemplo – também seriam beneficiadas com a descoberta.
Certamente muitos questionamentos éticos e comportamentais surgirão, auxiliando a compor o quadro de grandes indagações da nossa era, como o limite de idade para a maternidade.
* Mariangela Badalotti - Ginecologista, Coordenadora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da PUCRS e Diretora do Fertilitat – Centro de Medicina Reprodutiva.
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