Crônica - Luis Fernando Verissimo

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O nome

Luis Fernando Verissimo

Se fosse mulher seria Paula. Se fosse homem seria um problema. Todo mundo dava palpite. O pai da criança queria César. Um nome forte. Nome de vencedor. “De tirano também” comentou uma tia, que preferia Valmor. O avô materno, depois de dizer que não queria se meter, opinou que o nome do seu neto deveria começar com “A”. Augusto, Álvaro, até Anacleto. Lera em algum lugar que os nomes começados com “A” asseguram uma vida iluminada. Queria que seu neto tivesse uma vida iluminada. Imediatamente, surgiram as dúvidas, e foram lembradas várias personalidades da História e das imediações da família cujo nome começava com “A’ e eram uns fracassados, quando não bandidos. O avô paterno, Eumir Filho, revelou que sempre sonhara ter um neto com o nome do seu filho, o Eumir Neto, o que não só daria uma idéia de continuidade dinástica como permitiria ao bebê ser chamado de Eumir Terceiro - o que lhe asseguraria reverência e respeito já no berçário. “Bobagem”, disse outra tia, para quem deveriam escolher um nome moderno. “Brad. Por que não Brad?”

A competição chegou a tal ponto que na véspera da ecografia que mostraria o sexo da criança os pais receberam telefonemas furtivos das várias correntes.

- Nada de César. Põe Valmor.

- Não esqueçam. Começando com “A”. Dá sorte.

- Eumir Terceiro. Pensem na repercussão.

- Brad! Brad!

E até uma tia-avó telefonou do interior para lembrar que aquela seria uma boa oportunidade para homenagear o bisavô da criança, injustamente esquecido pela família durante todos aqueles anos, dando o seu nome ao bebê.

- O Deusdério ficaria tão faceiro!

* * *

Feita a ecografia, os pais do bebê decidiram não contar que era homem - pelo menos não imediatamente. Não queriam desapontar nenhuma facção. Precisavam ganhar tempo.

- Não deu para ver.

- Como, não deu para ver? Tem pinto ou não tem pinto?

- Não ficou claro. Podia ser o pinto ou podia ser outra coisa.

- Que outra coisa, meu Deus?

A situação está assim. Pelo menos até a próxima ecografia, as discussões foram suspensas. Menos as discussões do próprio casal. O pai insiste que quer César, citando o seu direito como co-autor da criança. A mãe - alegando que quem dá o nome ao produto é a fábrica - diz que já decidiu: se chamará Paulo.

© by Luis Fernando Verissimo

CRÉDITO DA FOTO: Sirangelo - Divulgação - Editora Objetiva.


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