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30.11.2017

Qual a hora certa de ser mãe? O dilema das mulheres entre o relógio biológico e a vida social

As exigências da biologia e as pressões da vida em sociedade têm um pendor ancestral para entrar em conflito, e uma das arenas onde esse confronto se desenrola com maior frequência e angústia, nos dias atuais, é a maternidade. O corpo pede, para o bem da mãe e do bebê, que a gravidez aconteça quando a mulher ainda é jovem, de preferência até os 35 anos. 
 
O sistema social colabora cada vez menos para isso: terminam-se os estudos mais tarde, é preciso fazer aquele estágio ou intercâmbio no Exterior, há que engrenar a carreira primeiro, os casamentos se tornam tardios. Se em um passado não muito distante a preocupação das mulheres costumava ser não engravidar com idade precoce, atualmente o que tira o sono de muitas é não deixar para ser mãe muito tarde – ou mesmo tarde demais.
 
Esse é o dilema. A mulher vive entre a ânsia de alcançar metas e ambições, por um lado, e o tique-taque ensurdecedor do que parece ser uma contagem regressiva. Como de hábito, quando a biologia e a vida social entram em conflito, a última parece estar levando vantagem. As estatísticas apontam que as brasileiras esperam cada vez mais para ter filhos. 
 
Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30,9% dos nascimentos concentravam-se em mães de 20 a 24 anos em 2005. Dez anos depois, o percentual nessa faixa etária recuou para 25,1%. Enquanto isso, na faixa dos 30 aos 39 anos, o índice pulou de 22,5% para 30,8%. Um outro levantamento, publicado em 2014, apontou que, entre as mulheres mais instruídas, com 12 ou mais anos de estudo, quase metade só tinha o primeiro filho após os 30 anos.
 
A questão que atormenta muitas mulheres – e seus companheiros, naturalmente – é até quando postergar sem que se coloque em risco o sonho de ter uma criança, e de que ela seja perfeitamente saudável.
 
— Existe uma discussão sobre qual a melhor idade para engravidar, do ponto de vista biológico. Não é comprovado, mas seria entre os 24 e os 27 anos. O que acontece é que, quanto mais a paciente quer desenvolver a sua carreira, mais ela vai levando para cima essa idade e mais vão aparecendo dificuldades. O que vemos hoje é um grupo grande que permanece tendo filhos antes dos 20 anos, daí o pessoal se cuida muito dos 20 aos 35, e depois disso começa a crescer de novo. Quando a paciente chega lá pelos 34, 35 anos, já começo a dizer a ela: "Tu tens de dar uma pensada do que vai fazer da tua vida". A partir dos 37, 38 anos, já começa a ter mais dificuldades — afirma José Geraldo Ramos, professor titular de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
 
Mais difícil e mais arriscado
 
Os problemas são de várias ordens. Um deles tem a ver com a perda de fertilidade. Até os 30 anos, a chance de uma mulher engravidar no mês, se estiver tentando, é de 25%. Depois dos 40 anos, o índice cai para apenas 10%. Eduardo Passos, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, explica que isso ocorre porque, nessa idade, 80% dos embriões são anormais do ponto de vista genético, o que acontece por causa da idade do óvulo. Como consequência, a gestação não vinga.
 
Nos casos em que a mulher consegue engravidar, surge um outro problema, o dos riscos para a saúde do feto. Em mulheres mais maduras, há mais chance de que a criança tenha uma série de doenças genéticas. A mais comum é a síndrome de Down. No caso de uma mulher de 25 anos, a probabilidade de um bebê nascer com Down é de uma em mil. Se essa mesma mulher engravidar aos 45, a chance é de uma em 30.
 
— Se não gesta antes de determinada idade, a mulher arrisca não conseguir engravidar, demorar mais para engravidar e ter mais alterações cromossômicas nos seus embriões. Esse é o resumo — diz Passos. 
 
Uma terceira dificuldade diz respeito à própria saúde da paciente. Na faixa dos 40 anos, variadas doenças, como hipertensão arterial ou diabetes, tornam-se mais frequentes, o que é um complicador para a gestação. Ela também teve mais tempo de exposição a relações sexuais. Caso não tenha se protegido adequadamente ao longo da vida, é mais provável ter adquirido alguma DST que levou a uma doença inflamatória pélvica, uma das principais causas de infertilidade.
 
— A recomendação que estamos dando é que tenham os bebês antes dos 37 anos porque, se houver algum problema, ainda dá para tentar ajudar — aconselha Ramos.
 
Para quem as clínicas de reprodução assistida podem ser indicadas
 
Existe uma ilusão comum entre as mulheres que decidem deixar para mais tarde a maternidade: muitas se confortam com a ideia de que, em caso de dificuldade para engravidar por causa da idade, poderão recorrer a alguma clínica de reprodução assistida.
 
A professora de ginecologia da UFRGS Jaqueline Lubianca, coordenadora do ambulatório de planejamento familiar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, desmonta esse engano. As técnicas utilizadas, ressalta ela, são para mulheres com problemas de fertilidade, não para aquelas que têm menos chance de engravidar por causa da idade:
 
— É importante saber que as técnicas de reprodução assistida não servem para melhorar a fecundidade de uma paciente que não tenha infertilidade. As pessoas estão pensando assim: "Quando eu chegar aos 40 anos, faço uma fertilização in vitro e vou engravidar". Não, não é assim. Porque os óvulos acompanham a idade, e todos os resultados da fertilização também diminuem, a eficácia é menor em mulheres mais velhas. E se essa mulher ainda tiver um problema de fertilidade, aí soma as duas coisas, e é ainda mais difícil.
 
Um caso clássico para uma clínica de reprodução assistida, exemplifica Jaqueline, seria uma paciente de 25 anos que não consegue engravidar por causa de uma endometriose severa ou de dano tubário decorrente de doença inflamatória. Numa situação assim, coletam-se os óvulos dela, jovens e saudáveis, faz-se a fertilização in vitro e depois transfere-se o embrião para dentro do útero. Caso os óvulos sejam mais velhos, no entanto, as chances de sucesso reduzem-se.
 
— O ideal é a pessoa se organizar para engravidar ali entre seus 25, 30, 34 anos. Não deixar para tentar o primeiro filho depois dos 35 anos, porque aí já caiu a fecundidade, que é a taxa de gestação a cada mês. Isso é também um papel do ginecologista. A cada consulta, observando a idade da paciente, a situação emocional, o fato de estar com parceiro, com uma vida afetiva organizada, de alertá-la. Porque frequentemente não foi chamada a atenção dela, ela estava tocando a vida, e aí passa o tempo da maternidade. Tem de cuidar para não perder esse timing. Chegar lá aos 42 anos e ter vontade, mas aí descobrir que já passou o tempo biológico, que aumentam muito os riscos de um bebê malformado que ela não quer e não tem como administrar — pondera Jaqueline. 
 
Uma outra ilusão, observa a professora, pode ser adiar a gravidez pensando que chegará um momento em que a vida estará mais organizada e tranquila, com condições ideais para acolher um filho. Pode ser que o tempo passe e esse momento perfeito nunca chegue.
 
— A gente não pode ter tudo, nem tudo ao mesmo tempo. Qual é o melhor momento para gestar? É quando a mulher está saudável, preparada e num relacionamento emocional estável com uma pessoa que possa ser um bom pai. Esse é o melhor momento — acredita a especialista. 
 
 
 
Fonte: Zero Hora